Pesquisa faz um mapeamento da enfermagem no Brasil

Levantamento apontou um cenário alarmante referente à insegurança no local de trabalho
A enfermagem, profissão historicamente marcada pelo compromisso com a saúde pública, tem grande capilaridade social, estando presente na maioria das ações desenvolvidas pelo Sistema Único da Saúde. Formada por auxiliares, técnicos em enfermagem e enfermeiros, a categoria abrange quase dois milhões de profissionais em todo país. Apesar de sua importância para a sociedade, eles não têm o reconhecimento e muitas vezes não encontram condições para desenvolver seu trabalho com segurança e dignidade, como apontado pela pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil.
O mais amplo levantamento sobre uma categoria profissional já realizado na América Latina é inédito e abrange um universo de 1,6 milhão de profissionais. O estudo, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por iniciativa do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), apontou que 66% dos entrevistados relatam desgaste profissional. A existência de violência no local de trabalho também foi apontada pelos entrevistados
Em Minas Gerais, onde há 176 mil profissionais de enfermagem inscritos, a vice-presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG), enfermeira Márcia do Carmo Bizerra Caúla, observa que há casos de péssimas condições de trabalho. “Há falta de recurso material, espaço físico inadequado, número de profissionais insuficientes para atender à demanda da população e demanda superior ao suportável pelo serviço e saúde. Todos esses fatores propiciam um ambiente favorável á violência e insegurança no trabalho.”

Além disso, Márcia Caúla observa que grande parte dos serviços de saúde estão localizados em áreas de risco, com altos índices de violência e de grande vulnerabilidade social. “E grande parte das unidades de saúde não contam com a presença da segurança pública”, completa. Segundo ela, a recomendação caso o profissional seja vítima de agressão (seja ela verbal ou física) é denunciar. “Os profissionais de Enfermagem devem registrar um boletim de ocorrência, notificar em relatório o fato ocorrido e enviar ao Coren-MG denúncias das situações que impliquem em risco para o exercício das atividades profissionais”, completa Márcia Caúla.

Esta atitude é de fundamental importância para a garantia do bom atendimento à sociedade em geral. “O impacto da violência é altamente danoso. Auxiliares de enfermagem, técnicos em enfermagem e enfermeiros já convivem com uma histórica desvalorização profissional por parte dos nossos governantes no que se refere a baixos salários e jornadas extensas de até 100 horas semanais. A soma desses fatores às condições de trabalho precário e à violência física e psicológica no trabalho comprometem e muito a saúde do trabalhador.”

Sobre a Pesquisa Perfil da Enfermagem

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área de saúde compõe-se de um contingente de 3,5 milhões de trabalhadores, dos quais cerca 50% atuam na enfermagem. A pesquisa sobre o Perfil da Enfermagem, realizada em aproximadamente 50% dos municípios brasileiros e em todos os 27 estados da Federação, inclui desde profissionais no começo da carreira (auxiliares e técnicos, que iniciam com 18 anos; e enfermeiros, com 22) até os aposentados (pessoas de até 80 anos).

No quesito mercado de trabalho a pesquisa apurou que 59,3% das equipes de enfermagem encontram-se no setor público; 31,8% no privado; 14,6% no filantrópico e 8,2% nas atividades de ensino.A pesquisa foi encomendada pelo Cofen para determinar a realidade dos profissionais e subsidiar a construção de políticas públicas.

Renda mensal
Considerando a renda mensal de todos os empregos e atividades que a equipe de enfermagem exerce, constata-se que 1,8% de profissionais na equipe (em torno de 27 mil pessoas) recebem menos de um salário-mínimo por mês. A pesquisa encontra um elevado percentual de pessoas (16,8%) que declararam ter renda total mensal de até R$ 1.000. Dos profissionais da enfermagem, a maioria (63%) tem apenas uma atividade/trabalho.

Os quatro grandes setores de empregabilidade da enfermagem (público, privado, filantrópico e ensino) apresentam subsalários. O privado (21,4%) e o filantrópico (21,5%) são os que mais praticam salários com valores de até R$ 1.000. Em ambos, os vencimentos de mais da metade do contingente lá empregado não passa de R$ 2.000.

Masculinização
A equipe de enfermagem é predominantemente feminina, sendo composta por 84,6% de mulheres. É importante ressaltar, no entanto, que mesmo tratando-se de uma categoria feminina, registra-se a presença de 15% dos homens.

Profissionais qualificados
O desejo de se qualificar é um anseio do profissional de enfermagem. Os trabalhadores de nível médio (técnicos e auxiliares) apresentam escolaridade acima da exigida para o desempenho de suas atribuições, com 23,8% reportando nível superior incompleto e 11,7% tendo concluído curso de graduação. O programa Proficiência e outras iniciativas de aprimoramento promovidas pelo Sistema Cofen/Conselhos Regionais revelaram ampla penetração, alcançando 94,5% dos enfermeiros e 98% dos profissionais de nível médio (técnicos e auxiliares) que relatam participação em atividades de aprimoramento.

Desemprego aberto
Dificuldade de encontrar emprego foi relatada por 65,9% dos profissionais de enfermagem. A área já apresenta situação de desemprego aberto, com 10,1% dos profissionais entrevistados relatando situações de desemprego nos últimos 12 meses.
Concentração geográfica

Mais da metade dos enfermeiros (53,9%), técnicos e auxiliares de enfermagem (56,1%) se concentra na Região Sudeste. Proporcionalmente à população, que representa 28,4% dos brasileiros segundo o IBGE, a Região Nordeste apresenta a menor concentração de profissionais, com 17,2% das equipes de enfermagem

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