Depressão pós-parto pode surgir fora de hora e com sintomas confusos

Depressão pós parto

A depressão pós-parto nem sempre é pós-parto. E nem sempre é depressão. Uma área de pesquisas em rápido crescimento está mudando a própria definição de doença mental materna, mostrando que ela é mais comum e diversificada do que se pensava.

 Cientistas dizem que as novas descobertas contradizem a visão prevalente durante muito tempo de que os sintomas começam apenas no período de algumas semanas após o parto. Na realidade, eles dizem, a depressão com frequência começa durante a gravidez e pode surgir em qualquer momento durante o primeiro ano depois de o bebê nascer.

 Estudos recentes também mostram que a gama de transtornos enfrentados pelas mulheres é maior do que se pensava. No ano que se segue ao parto, estudos sugerem, pelo menos uma em oito mulheres, e possivelmente até uma em cada cinco, desenvolvem sintomas de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo ou uma combinação desses sintomas. Embora os estudos estejam trazendo pistas sobre quem é mais vulnerável, com frequência há casos que parecem surgir do nada.

 Enquanto a conscientização pública do problema cresce, muitas vezes se intensificando depois de uma mãe cometer suicídio ou matar seu bebê, 12 Estados americanos, incluindo o Illinois, Nova Jersey, Texas e Virgínia, aprovaram leis que incentivam a realização de exames, divulgação de informações e tratamento dos problemas, e Nova York e outros Estados analisam ações a serem adotadas. A Lei da Saúde Acessível (a lei de reforma da saúde promulgada por Obama) prevê medidas para aumentar as pesquisas, o diagnóstico e o tratamento da doença mental materna.

 Às vezes os casos são leves e se resolvem sem tratamento. Mas uma análise aprofundada de 30 estudos estimou que um quinto das mulheres sofre um episódio de depressão no primeiro ano depois de dar à luz, metade das quais apresentando sintomas sérios.

 Jeanne Marie Johnson, 35 anos, de Portland, Oregon, teve uma gravidez feliz, mas começou a ter visões logo após o nascimento de sua filha, Pearl. Ela contou que se imaginava sufocando sua filha enquanto a amamentava, atirando-a diante de um ônibus ou jogando-a contra a parede.

 Ela disse que ficava horrorizada com a ideia de machucar sua filha e que não concretizou os atos que imaginava. Mas, olhando para o rinque de patinação no gelo de um shopping center, no andar de baixo, “eu me visualizava debruçada da grade, deixando-a cair e estourar como uma melancia”, contou Johnson. “Eu estava pensando ativamente em meios de fazer mal a ela.”

 A maioria das mulheres que enfrenta esses “pensamentos intrusos”, como são chamados por especialistas, nunca chega a ferir seus filhos. Algumas delas tomam medidas extremas para proteger seus bebês. Uma mulher “passou meses descendo a escada de sua casa escorregando sentada, porque tinha se imaginado jogando sua filhinha escada abaixo”, contou Wendy N. Davis, diretora executiva da organização Pospartum Support International.

 Mas estudos indicam que o estresse materno pode prejudicar a capacidade das mulheres de formar vínculos com seus filhos ou cuidar deles e que a saúde emocional e cognitiva dos filhos pode sofrer em consequência disso.

 Para os cientistas, a doença mental materna é causada por uma interação complexa de genes, estresse e hormônios. “O nível de hormônios sobe para mais de cem vezes o normal”, disse Margaret Spinelli, diretora do Programa de Mulheres do departamento de psiquiatria da Universidade Columbia. Após o parto o nível dos hormônios cai vertiginosamente, numa montanha-russa que pode “perturbar a química cerebral”.

 Algumas mulheres têm predisposição genética para reagir intensamente às mudanças hormonais. E algumas são mais sensíveis a fatores de estresse como dificuldades com a família, as finanças, o parto ou a maternagem.

 A doença mental materna não é um fenômeno novo. Foi reconhecida já no século 5 a.C., quando Hipócrates sugeriu que fluidos do útero podiam subir para a cabeça após o parto e provocar delírios. Na Idade Média, as mulheres com esses sintomas eram vistas como bruxas ou vítimas de bruxaria. Na década de 1920, uma teoria de inspiração freudiana atribuiu esses transtornos de humor ao homossexualismo reprimido, frigidez ou desejos incestuosos.

 O entendimento científico já avançou muito e continua a evoluir. O “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, ou DSM), a obra de referência usada no diagnóstico de doenças psiquiátricas, primeiro descreveu esses sintomas em 1994 como “transtorno depressivo importante” que tem início nas quatro semanas seguintes ao parto. A edição mais recente do manual, publicada no ano passado, diz que os sintomas com frequência incluem “ansiedade grave e até ataques de pânico” e estimou que metade do que é considerado depressão pós-parto grave na realidade tem início durante a gravidez.

 A depressão na gravidez também pode passar despercebida porque sintomas como flutuações de humor e dificuldade de dormir também ocorrem em gestantes que não estão deprimidas. E os médicos aprendem na escola de medicina que “as mulheres não ficam deprimidas durante a gravidez, porque estão felizes”, disse Katherine L. Wisner, professora de psiquiatria e obstetrícia na universidade Northwestern.

 Em um estudo de 2013, o maior estudo realizado até agora para detectar depressão pós-parto em mulheres, Wisner e seus colegas constataram que 14% de 10 mil mulheres entrevistados tiveram depressão entre quatro e seis semanas depois de dar à luz, mas que para um terço delas a depressão realmente começou durante a gravidez. Outras pesquisas indicaram que os sintomas podiam surgir em qualquer momento no primeiro ano após o parto.

 Outro estudo de 2013 avaliou 461 mulheres duas semanas e seis meses após o parto. Constatou que nos dois momentos, 11% delas apresentavam sintomas obsessivo-compulsivos, mais ou menos quatro vezes a proporção vista na população feminina geral. Mas, segundo um dos autores do estudo, Dana Gossett, chefe de ginecologia e obsetrícia da universidade Northwestern, “não foram os mesmos 11%. Metade das mulheres melhorou em até seis meses e a outra metade desenvolveu TOC.”

 Pesquisas também demonstram que as mulheres podem apresentar vários transtornos psiquiátricos ao mesmo tempo. No estudo de Wisner, dois terços das mulheres com depressão também apresentaram ansiedade; quase um quarto delas tinha transtorno bipolar.

 Tina Duepner, 34 anos, de DeSoto, Missouri, teve sintomas que variaram de pensamentos passageiros a sentimentos suicidas. Disse que ouviu a voz de Deus vindo da televisão e outras vozes que a avisaram que seu filho, Landon, seria roubado dela.

 Ela disse que antes de ter esse filho já havia sofrido um aborto espontâneo, tinha entrado em trabalho de parto precoce, o que a obrigou a fazer repouso, e fez uma cesárea. Duepner disse que foi tratada com êxito, mas precisou de três internações psiquiátricas breves. Ela queria mais filhos, mas os médicos o desaconselharam, então ela teve suas trompas amarradas.

 A depressão anterior expõe as mulheres a risco maior de doença mental materna. O fato de ter familiares imediatos com transtorno bipolar também aumenta a vulnerabilidade. Duepner não tinha tido depressão anterior. Mas sua mãe, Marie Carr, tem transtorno bipolar, e os avós maternos de Duepner tiveram doenças psiquiátricas. Dificuldades financeiras, isolamento, dificuldades para amamentar ou gravidez não planejada também podem aumentar o risco de depressão.

 SEGUNDO FILHO – Emily Guillermo, 23, de Horizon City, Texas, teve uma experiência tranquila e feliz com seu primeiro filho, apesar de seu marido ter passado três meses servindo o Exército no Iraque e ter acompanhado o nascimento de Christopher pelo Skype. “Me pareceu muito natural ter virado mãe dele”, contou.

 Então ela voltou a conceber, apesar de usar anticoncepcionais. Ela e seu marido concordaram que ela faria um aborto, mas repensaram a decisão quando descobriram que ela já estava na vigésima semana de gestação. Emily disse que mergulhou na depressão durante a gravidez. “Eu me sentia como se meu corpo tivesse sido invadido.” Quando Benjamin nasceu, prematuro de seis semanas, Emily pensou: “Você não deveria ser meu. Não era para você ter sido feito.”

 Ela tinha adorado amamentar Christopher, mas tirava seu leite com bombinha para alimentar Benjamin. “Não suportava tê-lo em cima do meu peito”, ela contou. “Eu era como um robô. Eu trocava suas fraldas, dava mamadeira, o fazia arrotar. Como eu nunca o segurava no colo, ele começou a ficar com a cabeça achatada.”

 Ela tinha fantasias de abandonar Benjamin na sede dois bombeiros ou de forjar um acidente. Imaginava-se batendo o carro em alta velocideade contra um muro, poupando a vida de Christopher ao intencionalmente destruir o lado do carro em que Benjamin estava amarrado ao assento do carro. Katherine Wisner disse que os transtornos pós-parto podem incluir mais visões intensas que as doenças mentais não relacionadas ao parto.

 Com medo de que pudesse ferir Benjamin, Emily contou que pensou em procurar uma família que o adotasse. Uma noite “eu simplesmente falei na lata: ‘Não amo Benjamin’.” Seu marido, espantado e chocado, disse que procurariam ajuda para Emily e falou: “Até lá, eu vou amá-lo por nós dois”.

 O primeiro medicamento que ela usou não funcionou. Uma vez ela fechou a boca de Benjamin à força quando o estava alimentando. Em várias ocasiões quando estava dando banho nele, “joguei água sobre o rosto dele até ele começar a se debater, sem conseguir respirar”, ela contou. “Eu ouvia uma voz me dizendo ‘faça isso e ele vai parar de chorar. Ele não vai acordar Christopher de seu cochilo.'”

 Alguma coisa a levava a parar e a colocar Benjamin no berço. Mas, durante alguns segundos, ela não conseguia lembrar “se eu o tinha matado, se ele tinha se afogado ou o que eu tinha feito”, ela contou. Benjamin passou a ter medo. “Quando eu entrava em seu quarto, ele começava a chorar.”

 Com pensamentos suicidas, tentou pular na frente de um carro enquanto seu marido estava dirigindo, com os filhos no banco de trás, mas ele a impediu, dizendo: “Você vai amar Benjamin. Só precisamos encontrar o remédio certo para você.”

 A terceira combinação de medicamentos que ela experimentou funcionou, quando Benjamin tinha 9 meses de idade. Emily começou a sentir amor por ele, e, com a ajuda da Postpartum Support International, a esforçar-se para melhor sua relação com ele.

 O desenvolvimento de Benjamin tinha regredido. Em vez de chorar de modo diferente para indicar fome ou sono, ele tinha revertido a “um só choro histérico, porque tinha se acostumado a eu demorar para atendê-lo”. Hoje Benjamin tem 21 meses e seu desenvolvimento voltou ao normal. “Ele ainda tem um longo caminho a percorrer comigo”, disse Emily. “Agora eu sou a mãe dele, e ele sabe disso. Acho que agora Benny também me ama.”

 ESTADOS REAGEM – Com mais Estados americanos aprovando leis relacionadas à depressão pós-parto, a esperança é flagrar o problema no início. Os sintomas com frequência são tratáveis, embora encontrar a medicação ou terapia eficazes possa levar tempo.

 Apenas o Estado de Nova Jersey exige que as mulheres passem por exames, sob os termos de uma lei de 2006 proposta pela então primeira-dama Mary Jo Codey, que tinha tido depressão pós-parto. A medida foi recebida com ambiguidade. Um estudo feito em Nova Jersey com mulheres pobres atendidas pelo Medicaid revelou que os exames obrigatórios não tinham levado mais mulheres a serem tratadas. Katy Kozhimannil, professora de saúde pública na Universidade do Minnesota e autora do estudo, disse que a lei informou pediatras e obstetras do problema, mas não previu que fossem pagos pela realização dos exames.

 Além disso, segundo Kozhimannil, não existem opções suficientes de tratamento. “Se uma mulher procura tratamento com seu bebê, e o lugar trata pessoas com doenças mentais graves ou dependência de drogas ou álcool, ela pode se sentir pouco à vontade.”

 No Estado de Nova York, a senadora estadual Liz Krueger apresentou um projeto de lei para incentivar os exames e o tratamento. E provável que a lei seja aprovada e sancionada pelo governador Andrew M. Cuomo, que vetou lei semelhante de 2013 por razões técnicas, mas incentivou a legislação revista.

 Jeanne Marie Johnson, do Oregon, pode ter se beneficiado das leis estaduais que incentivam a conscientização da doença mental pós-parto. No checape pediátrico de 15 dias de sua filha, Pearl, Johnson recebeu um questionário para preencher. Suas respostas suscitaram preocupação e foram encaminhadas para sua parteira e uma assistente social. E, depois de sofrer um ataque de pânico, Johnson telefonou a um número de ajuda que o hospital lhe tinha dado.

 Ela conversou com uma assistente social, mas durante meses se negou a tomar remédios. Com medo de ficar sozinha com Pearl, insistia que sua mãe viesse ficar com ela quando seu marido não estava em casa. “Eu ligava constantemente para o telefone de emergência médica”, ela contou, para falar de problemas inexistentes, “porque enquanto estava falando ao telefone eu não poderia fazer nada de ruim.” Ela tinha desejos suicidas e escapava emocionalmente, bebendo vinho ou gim enquanto tomava banhos de banheira.

 Finalmente, após uma explosão emocional arrasadora, Johnson concordou em tomar medicação. Esta, associada ao grupo de apoio e ao fato de as cólicas de Pearl terem diminuído, a ajudou. Até Pearl chegar aos 4 meses de idade, “eu a amava, mas não gostava dela”, Johnson confessou. Hoje seu relacionamento com Pearl, que está com 2 anos, é amoroso e sem problemas. Johnson faz terapia, em parte para superar os três abortos espontâneos recentes que sofreu, mas não toma mais remédios.

 “Não sei se vou precisar disso se eu tiver outro filho”, ela disse. “Ainda há horas em que chego ao fim do dia sem energia alguma. Mas, mesmo nas horas de grande estresse, não tenho mais aquelas sensações de pânico ou os pensamentos intrusos. Isso faz um mundo de diferença.”

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