Cuidados com Feridas Diabéticas

Vera Ligia Lellis Jacob: Diretora clínica da CLIPÉS. Enfermeira Podiatra, coordenadora do curso de Pós Graduação em Podiatria Clínica, Prótese e Órtese de membros Inferiores (MMII), consultora ADJ

Cuidando da saúde dos pés
Com o tema ‘Pés-diabéticos’ profissional fala sobre o atendimento neste setor e quais as dificuldades enfrentadas no tratamento

Revista Feridas: Há quanto tempo a senhora atua no mercado médico em atendimento a pacientes diabéticos?
Vera Ligia Lellis Jacob: Há mais de 20 anos. Iniciei com a implantação do ambulatório de Pé Diabético do Hospital estadual Brigadeiro (SUS/SP). Depois, em 2010, abri um atendimento social na minha clínica privada, que possui uma parceria com a ADJ, para encaminhamento dos pacientes diabéticos com a complicação do pé diabético para tratamento podiátrico e podológico.

Feridas: Quais são as feridas mais comuns entre os diabéticos?
Vera: 77,8% das lesões (feridas) são originadas por fatores externos (lesão extrínseca), como: espinhos, pedras, queimaduras, objetos cortantes e pregos (Nursing (São Paulo); 3(27):26-9, 2000). A região mais comum é a plantar.

Feridas: Quais são os cuidados mais relevantes que os profissionais da saúde têm que ter em relação ao tratamento das feridas em diabéticos?
Vera: São, inicialmente, determinar a origem (isquêmica ou neuropática) e se tem infecção. Retirar a hiperqueratose que recobre, em geral, estas feridas, mantê-las limpas e protegidas, com o uso de um curativo que proporcione uma barreira bacteriana, retirar o apoio sobre a lesão. Simultaneamente, tratar a infecção com antibiótico sistêmico, se houver. Fazer retornos semanais, com o enfermeiro podiatra, para curativo, acompanhamento clínico da ferida e orientação e mensal ao médico para avaliação clínica e tratamento sistêmico.

Feridas: O que mais dificulta a cicatrização das feridas nesses pacientes?
Vera: O apoio do pé sobre a ferida ao andar e a hiperqueratose ao redor da ferida que em geral se forma.

Feridas: Quais são as maiores dificuldades que os pacientes enfrentam em relação aos cuidados com o corpo, quando o assunto é prevenção a machucados e feridas?
Vera: A falta de sensibilidade, a falta de orientação quanto aos cuidados gerais com os pés e a avaliação de um especialista para avaliar o apoio plantar deste pacientes e a sensibilidade sensório motora, fatores de extrema importância na prevenção das úlceras dos pés.

Feridas: Como os profissionais da medicina devem trabalhar esses pacientes em termos de conscientização?
Vera: Inicialmente avaliando os pés destes pacientes nas consultas periódicas, para poder tratar, orientar e encaminhar para outros profissionais da equipe, se necessário.

Feridas: Existem dificuldades, em termos materiais (medicamentos) ao tratamento desse tipo de feridas?
Vera: A minha experiência mostra que o que mais falta são profissionais com experiências neste assunto, pois, isto preveniria o aparecimento destas lesões e no tratamento delas teriam um resultado mais rápido na cicatrização e na prevenção de novas feridas.

Feridas: Qual é a infraestrutura adequada de um ambiente que atende o diabético ferido em termos de profissionais e medicamentos?
Vera: O ideal seria um local, onde tivéssemos um ambiente com mobiliário e aparelhos específicos para este atendimento. Acesso mais rápido a um exame de imagem e parceria para a confecção de sapato e palmilha especiais (oficina ortopédica). Quanto a profissionais a equipe ideal seria médico, enfermeiro podiatra, ortoprotesista e um técnico de podologia. O mínimo necessário seria o médico e o enfermeiro com conhecimento básico de pé diabético. Os outros profissionais especialistas, como o médico (ortopedista e vascular), enfermeiro podiatra e o ortoprotesista poderiam ter uma referência para encaminhamento dos pacientes que já apresentassem alguma alteração na arquitetura dos pés ou com alguma podopatia (calo, unha encravada, ferida, fissura, etc)

Feridas: Há diferença entre a sensibilidade de pele dos pacientes diabéticos para os não portadores de diabetes? Quais?
Vera: Sim, eles possuem uma maior fragilidade e uma diminuição da proteção fisiológica, como por exemplo o ressecamento da pele, conhecida como anidrose.

Feridas: Em termos gerais, a senhora acredita queo Brasil – dentro do seu sistema de saúde – está preparado para tratar desses pacientes, quando se tratando de ferimentos?
Vera: No momento não, pois temos poucos especialistas nesta área e a maioria não atua no SUS. O déficit de conhecimento é muito grande nesta área.

Feridas: Todas as feridas são tratadas igualmente, quero dizer, um ferimento no pé é tratado do mesmo modo que um ferimento na mão, caso tenham a mesma proporção e periculosidade? Se não, explique, por favor.
Vera: Não, pois as ulcerações plantares têm uma causa biomecânica, postural. Além de que a estrutura dos pés tem peculiaridades não encontradas em outras regiões do corpo, para suportar a carga (o peso) do corpo e a função do movimento (andar)

Feridas: Para finalizar, por que é tão importante os médicos terem muita atenção ao tratamento de feridas em diabéticos?
Vera: Porque o índice de amputação em decorrência destas úlceras são muito grande.
Vejam alguns dados importantes:
85% das amputações são precedidas de úlcera de pé
A prevalência de amputações é 10 vezes maior em pacientes diabéticos do que em indivíduos sem a doença

Fonte: . O Pé Diabético, rev. Angiologia e Cirurgia Vascular | Vol. 7 | Nº 2 | junh. 2011
Feridas em pac. Dibéticos, Rev Med (São Paulo). 2010 jul.-dez.;89(3/4):164-9

entrevista1Entrevista2

Para assinar a revista Feridas, clique aqui!

Comentários estão fechados