COVID-19: A importância da conscientização e prevenção no combate ao novo vírus que desestabilizou o planeta

 Quais são as recomendações dos especialistas em infectologia?

 

Por Daiane Brito

Desde janeiro de 2020 o mundo todo tem se mantido em estado de alerta contra uma nova ameaça de vírus que causa infecções respiratórias. O coronavírus provoca a doença denominada COVID-19, que em quadros mais leves, se manifesta como um resfriado comum e pode chegar a provocar, em quadros mais graves, síndromes respiratórias agudas, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS, do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome) e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, do inglês Middle East Respiratory Syndrome).

A família do coronavírus é conhecida desde meados da década de 1960 e recebeu esse nome devido a aparência do vírus ser semelhante a uma coroa (do latim corona). O novo agente do coronavírus, foi descoberto em 31 de dezembro de 2019, durante uma investigação epidemiológica e laboratorial, após a notificação de uma série de casos de pneumonia de causa desconhecida, diagnosticados inicialmente, na cidade chinesa de Wuhan, capital da província de Hubei, na China.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Para difundir o conhecimento a respeito da prevenção no combate ao novo coronavírus, conversamos com o Dr. Renato Kfouri, pediatra e infectologista, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Revista Feridas: Como tratar um caso ou suspeita de infecção pelo coronavírus?

Dr. Renato Kfouri: Neste momento, em relação à epidemiologia da doença, o Brasil vive uma situação diferente em cada região. Nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde nós já temos transmissão sustentada do vírus, ou seja, o vírus já circula livremente, não vale a pena e nem há testes em números suficientes disponíveis para detectar cada caso. Portanto, qualquer pessoa que chega, hoje, ao serviço de atendimento, sejam crianças, adolescentes ou adultos, com quadro de uma síndrome gripal (febre, tosse, dor no corpo, mal-estar e dor de garganta), estando bem não será submetida a teste, é possível que seja o coronavírus. Hoje é o vírus que mais circula entre nós, mas pode ser o rinovírus ou resfriado, inclusive o vírus influenza, mas não há indicação para teste em indivíduos que estejam bem. Nós vamos nos preocupar com grupos mais vulneráveis, especialmente os mais idosos, e aqueles que estão hospitalizados e que merecem uma assistência diferenciada. Em quadros mais graves será realizado o diagnóstico, mas hoje a suspeita clínica é feita em qualquer síndrome gripal febril. A hipótese de ser coronavírus deve ser considerada sempre.

Feridas: Porque é tão importante seguir as recomendações de prevenção no combate ao novo coronavírus?

Dr. Renato: As medidas de proteção têm dois olhares: o olhar da saúde individual, para nos protegermos e protegermos os nossos familiares, através de medidas preventivas de higienização pessoal, por exemplo. E o olhar da saúde pública que é, por exemplo, esse momento de restrição tão duro que vivemos hoje no país, com o fechamento de comércios e estabelecimentos, além do confinamento da população em suas casas. Toda essa movimentação que está sendo feita tem o intuito do olhar da saúde pública, em uma tentativa de diminuir o número de casos para que possamos oferecer uma assistência adequada aos pacientes que chegarão em grande número aos nossos sistemas público e privado de saúde.

Feridas: Sendo o pessoal da saúde peça elementar no combate ao novo coronavírus, qual é a melhor forma de se manterem seguros enquanto prestam atendimento à população, uma vez que são mais suscetíveis a contaminação da doença? 

Dr. Renato: O profissional da saúde deve seguir todas as medidas de proteção, não só em casos confirmados, como também em casos suspeitos, e deve cobrar dos hospitais que a comissão de infecção e saúde tenha uma ação protagonista nesse momento, no sentido de orientar e de definir regras e fluxos, desde a admissão dos pacientes com quadros suspeitos, até o manejo desses pacientes dentro das terapias intensivas. É fundamental que os protocolos definidos pelas comissões de infecção associadas da saúde, sejam cumpridos à risca para que seja preservada a integridade dos profissionais da saúde.

Feridas: Qual é o índice de mortalidade e qual faixa etária é mais atingida fatalmente pela doença?

Dr. Renato: Embora todas as faixas etárias sejam atingidas pela infecção (da criança ao idoso), os idosos têm sido as maiores vítimas, e quanto mais idade o indivíduo apresenta maior é o risco. Entre adolescentes e adultos jovens, as taxas de letalidade estão por volta de 1%, acima dos 60 anos esse nível sobe para 3%, acima dos 70 anos índice ultrapassa os 7% e acima dos 80 anos chegamos perto dos 16% de óbitos por coronavírus. Doentes crônicos se comportam, mais ou menos, na faixa de 5% de letalidade. É muito importante essa percepção dos grupos mais vulneráveis, porque são eles que vão adoecer e ocuparão os nossos leitos hospitalares e as terapias intensivas. Segundo dados de estudos chineses, em geral, um indivíduo que entra na terapia intensiva tem permanecido por cerca de duas a três semanas hospitalizado, ou seja, são hospitalizações de longa permanência que demandam uma assistência lenta, com mortalidade elevada, e certamente, com os leitos que nós temos disponíveis hoje, nós não daremos conta de atender a todos, se não conseguirmos diminuir o fluxo de pacientes com essas medidas restritivas, que o ministério da saúde têm tomado, no sentido de diluir essa epidemia e não termos um pico de casos muito agudo.

Feridas: Quais são as medidas preventivas mais adequadas a serem praticadas pelo pessoal da saúde?

Dr. Renato: Nós, profissionais da saúde, estamos inevitavelmente sujeitos à exposição ao coronavírus, seja nos nossos ambulatórios, nos serviços de emergência e dentro de hospitais, em terapias intensivas. Portanto, todo cuidado deve ser redobrado, dificilmente nós conseguiremos escapar de nos expormos ao coronavírus. Contudo, nós temos uma margem grande de possibilidade de cura, 80% são quadros leves que apresentam poucos sintomas. O mais importante é reforçar as medidas de higiene tão comuns para nós, as quais, inclusive, a população está aprendendo a ter só agora, que é a lavagem adequada das mãos; cuidados com a proteção dos olhos, nariz e boca; o uso de álcool gel; a etiqueta da tosse, cobrindo a boca com a parte interna do braço. Tudo isso é muito importante para que consigamos manter um risco menor às exposições recorrentes no cenário de um profissional da saúde. Ao manuseio de pacientes com suspeita ou confirmação da infecção, o uso de luvas, máscaras e óculos é fundamental, especialmente durante os procedimentos de intubação e de ventilação. Infelizmente as nossas equipes de saúde não estão adequadamente suportadas com EPI’s e treinamento. Esse é um desafio para as comissões de infecção hospitalar, cuidar de seus colaboradores de maneira que não tenhamos uma “pane” de funcionários da saúde, tão importantes nesse momento delicado da epidemia.

Feridas: Como a equipe de saúde deve orientar os pacientes?

Dr. Renato: As equipes de saúde devem orientar os pacientes que estão com sintomas leves a permanecerem em casa. Não há nenhuma necessidade de procura demasiada por pronto-socorro em quadros leves. Quadros benignos, que podem ser administrados em casa por telemedicina ou orientados por telefone, devem ser incentivados, nesse momento, a não frequentarem os serviços de saúde, não só para não o sobrecarregarem, como também para evitarem o contato com outros indivíduos doentes, isso gera uma exposição maior ao vírus para ambas as partes, tanto para quem já está doente no hospital, quanto para quem apresenta quadro leve e vai à procura de cuidados médicos.

Foto: arquivo pessoal

Dr. Renato Kfouri

Pediatra e Infectologista. Presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e Diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

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