Aumento populacional fez crescer número de queimaduras, diz coordenador do HGE

Fotos: Vagner Oliveira/ Bahia Notícias

Problema social, o crescimento das queimaduras acompanha o aumento populacional. Em entrevista à Coluna Saúde do Bahia Notícias, o cirurgião plástico e coordenador da unidade de queimados do Hospital Geral da Bahia [HGE], Carlos Briglia, fala sobre seu trabalho, critica a falta de médicos no setor público e explica porque não há unidade de queimados em hospitais particulares. “O queimado é um paciente caro. Dá trabalho, precisa de uma equipe específica. Eu atendo em hospital particular, mas aí o hospital só interna quando eu vou atender”, conta. No São João, os principais acidentes são decorrentes de explosões, mas episódios fortes de queimaduras em época de festa junina são relatados pelo cirurgião. “O que me choca é que alguém que não tem absolutamente nada com a guerra de espadas perder o olho, a orelha, lesões, queimaduras no pescoço, sem ter absolutamente nada”. A polêmica que envolve a vinda de médicos cubanos ao Brasil, as ocorrências decorrentes das recentes manifestações, dicas de primeiros-socorros e sugestões para diminuir o número de ocorrências são alguns dos outros temas da entrevista.

Bahia Notícias – Estamos em um período em que os fogos de artifício estão em alta. Comparando com os outros, o período de São João é o de maior incidência?

Carlos Briglia – De queimaduras muito pouco. Existem situações durante o ano que acontecem de forma inexplicada, que você tem um aumento de queimados sem nenhuma justificativa e no São João há um pequeno aumento de queimaduras não extensas, queimaduras pequenas. O que se tem de aumento no São João são as mutilações. Aí tem perda de dedo, ponta de dedo, mão, membros às vezes, porque a bomba prevalece no São João, a explosão prevalece. Queimaduras geralmente são pequenas e não é preciso nem internar. Mas a parte de explosão e mutilação é muito maior. Os números que eu tenho do ano passado mostram que tiveram queimaduras durante três dias, 23, 24 e 25, foram vinte e poucas. Em compensação, foram mais de 30 explosões. E essas explosões sempre deixam uma sequela maior. Das queimaduras, dessas que entraram, de 10% a 15% eram relacionadas aos fogos.

BN – Qual a diferença da cirurgia de queimadura e explosão?

Briglia – Na explosão há a expansão, você geralmente está segurando uma bomba na mão. Ela não queima. Queima talvez a área em que você tem perto da explosão, mas ela arranca, faz a ablação do membro, fratura, que pode ser da ponta do dedo, mão até o braço inteiro às vezes. E a queimadura você não tem uma expansão como em uma bomba por exemplo. Você tem o contato do agente, no caso a pólvora, com a parte cutânea, então você queima uma parte do corpo. A explosão você tem uma pequena queimadura. Mas prevalece a fratura quando ela expande, é diferente.

BN – Em quais partes do corpo ocorrem mais acidentes com queimaduras?

Briglia – Não existe uma prevalência. As estatísticas, os levantamentos, você vai ver que é dividido entre todas as áreas. Se você começa a fazer cabeça, tronco e membros, os percentuais são parecidos.

BN – Você é responsável pela unidade de queimados do estado, que há unidades em Salvador e Santo Antônio de Jesus. Você viaja muito entre essas duas cidades?

Briglia – O paciente queimado é atendido na emergência. O grande queimado precisa de um suporte. Os pacientes mais complexos que existem são os queimados, porque a queimadura desregula todo o sistema, todos os sistemas do organismo, então quando queima tem o choque da queimadura, desregula tudo. Primeiro precisa estabilizar o paciente para depois fazer algum procedimento cirúrgico. E quando ele entra na emergência e justifica o internamento ele precisa ser estabilizado, internado na unidade de queimados e daí terem os procedimentos cirúrgicos específicos. Então não precisa estar lá e cá [em Salvador e Santo Antônio de Jesus]. A unidade existe e funciona dentro de um fluxo.

BN – Quando uma pessoa sofre uma queimadura, antes de chegar ao hospital, que sugestão você dá de primeiros-socorros?

Briglia – Só lavar. Água, sabão neutro e proteger com uma coisa limpa, e jamais fazer o que se faz normalmente, que é pasta [de dente], pó, café, gelo, folha disso e daquilo.

BN – O que esses “tratamentos” não recomendáveis podem causar?

Briglia – Pode infectar ou pode aprofundar, ou seja, dá no mesmo. Se você infecta uma queimadura você aprofunda ela. Às vezes a queimadura é superficial, você lavando, protegendo e dando um tratamento adequado ela evolui de forma favorável. Se você a trata de uma forma mais rudimentar, com pozinho disso, aí ela vai infectar você sai de uma semana para três, quatro semanas de tratamento.

BN – Uma vez eu entrevistei um empresário do ramo de fogos de artifício e ele me disse que os fogos hoje já não são tão procurados como em outras épocas. Você acha que, em termos de ocorrência, as coisas têm piorado?

Briglia – A população aumenta, então aumenta o número de queimados. Queimadura é um problema social. Com relação à São João, os pais têm tido mais cuidados do que há uns dez anos. Mas ainda continuam misturando cachaça e pólvora. Então depois de um tempo você não vê mais os filhos e aí começa a história. Enquanto o pessoal não está bêbado e vendo os filhos pequenos soltando fogos, tudo bem. Os fogos hoje são mais inócuos do que eram antigamente. A pólvora às vezes não irrita, não queima se botar a mão, há um implemento de elaboração dos fogos que os torna mais seguros. Mesmo assim há fogos que não dá para criança soltar. Eu soube que serão liberadas as espadas em Cruz das Almas [não foram]. Eu ouvi falar, não foi nada oficial, mas o juiz disse que ia liberar porque era uma coisa de tradição. Eu acho uma coisa meio perigosa. Acho uma postura precipitada, se você quiser fazer isso, faça de uma forma que não prejudique. Tinha uma unidade de queimados em Cruz das Almas, há três anos, mas acabou mudando para Santo Antônio de Jesus. Eu passei três ou quatro festas juninas em Cruz das Almas, em plena época em que as espadas eram liberadas. Me marcou porque atendi quatro pacientes graves, um perdeu a orelha, o outro perdeu o olho, uma outra queimou o tórax e a região cervical. E uma senhora de setenta e poucos anos expôs as estruturas profundas da coxa. Nenhum deles estava na festa. Eles estavam passando. Então quem solta espada se protege, bota a máscara, capa, capacete, mas o curioso ou o que vai passando está no aleatório. A espada não tem destino. Então é complicado liberar.

BN – Esses relatos são muito fortes. Tem algum episódio específico que te chocou mais?

Briglia – O que me choca é que alguém que não tem absolutamente nada com a guerra de espadas perder o olho, a orelha, lesões, queimaduras no pescoço, sem ter absolutamente nada. A senhora estava no quintal de casa quando a espada quebrou a telha e estourou no colo dela. Se voltar [a liberar espadas em Cruz das Almas] vai ser algo muito violento. Porque os acidentes vão ocorrer, os pacientes vão precisar ser tratados, é ônus. Muitos vão ficar inválidos, mais ônus ainda. Para manter uma tradição? Que se mantenha uma tradição dentro de uma situação controlada, e não de uma agressividade tão grande com quem não tem nada a ver com isso. Ninguém respeita “não pode soltar nessa rua”, não existe.

BN – O Hospital Geral do Estado [HGE] recebe muita gente do interior?

Briglia – Sim, o ano inteiro. Em Santo Antônio tem 14 leitos, aqui [em Salvador] tem 38. Vêm dois, três pacientes queimados por dia, em média.

BN – Quantas cirurgias você faz por dia em média?

Briglia – De queimados, por dia eu posso fazer uma ou duas, a depender do tamanho da cirurgia. Não dá para fazer mais do que isso. [Carlos Briglia também faz cirurgia plástica estética].

BN – Você acha que existe alguma forma para diminuir o número de queimados?

Briglia – Existem atos e posturas que o governo pode fazer relacionadas a… Você não pode vacinar contra queimaduras. Mas você pode prevenir queimaduras, pois são acidentes e como tais podem ser prevenidos. A queimadura como tendo um componente maior o aspecto social, a orientação, a prevenção das queimaduras é o que diminui [o índice]. Existem campanhas publicitárias montadas e feitas pela própria Sociedade Brasileira de Queimaduras, mas eu não consegui apoio para colocá-las, porque é caro colocar em outdoors, rádios, televisão e jornal. Eu nunca consegui esse apoio, e uma campanha dessa precisa de um ano, e com uma frequência maior, e depois seis meses, que se chama de reforço, e depois mais seis meses mantendo lembrança para a coisa [o número de ocorrências] diminuir. Precisaria de dois anos de campanha, porque é a única forma de diminuir isso. Para isso acontecer, muita gente que possa financiar e bancar precisa se envolver nisso, porque a Sociedade [Brasileira de Queimaduras] já tem a estrutura pronta, foi feita pela primeira vez no Ceará em 1992, mas aí houve muitas empresas que bancaram. Tem um vídeo com o que deve ser feito, mas muito regionalizado, precisaria que uma agência de propaganda assistisse e dali trouxesse dentro da realidade da Bahia.

BN – Em relação às manifestações que ocorrem no país, há ocorrências de queimadura?

Briglia – Não tem nada que tenha chamado a atenção. Estão soltando bombas. O spray de pimenta queima, queima quimicamente, mas depois passa. Não tivemos nada lá [nas manifestações] ligado a isso.

BN – Você acha que faltam recursos na unidade de queimados para fazer um trabalho melhor?

Briglia – A gente atende da melhor maneira que a gente pode. Precisaria de mais coisa: de mais médicos, de mais pessoal, em termos de material não me falta nada, da realidade que a gente tem, temos material de primeira linha, é mais a parte de recursos humanos, que é uma deficiência não só dos queimados, mas de todo o serviço público, pela estrutura que tem, com relação à contratação de pessoal. Tem áreas que estão no dia-a-dia, menos específicas, que têm uma demanda maior, ainda está se drenando mais para a ponta, emergência que falta médicos, para depois fazer a parte mais específica. Existe um déficit, mas que existe dentro do serviço público, e o estado não contrata, não sei se é por falta de verba, aparentemente não, é o que dizem. É muito mais pela questão burocrática para poder viabilizar. Tanto é que existem várias formas de contratação, mas sempre tem uma questão que está faltando isso, o Ministério Público entra, enfim, existem várias formas de contratação para suprir essa falta.

BN – Em hospitais particulares há setores de ortopedia, emergência geral, mas não há de queimados…

Briglia – Não tem porque o queimado é um paciente caro. Dá trabalho, precisa de uma equipe específica. Eu atendo em hospital particular, mas aí o hospital só interna quando eu vou atender. Eu não tenho vínculo empregatício, mas eu atendo no Hospital Espanhol, Hospital da Bahia, Hospital da Cidade, então tem o paciente assim. Se eu for tratar eles internam. Se não for eles não tem como internar. A não ser que seja uma coisa pequena. Em um hospital grande você faz a adaptação do quarto, dá para você atender. Precisa ter um especialista, a questão toda é essa. No Hospital São Rafael tem, há três ou quatro que fazem queimados em Salvador. Fora isso mais ninguém. Quem queima geralmente é de classe social menos favorecida, o de classe social mais favorecida não se queima, eventualmente se acidenta no barco ou fazendo um churrasco, mas no dia-a-dia são mais os pobres.

BN – Há uma polêmica que envolve a vinda de médicos cubanos para o Brasil. O que você acha disso?

Briglia – Eu não tenho nada contra os cubanos. A questão é simples. Se eles forem para os lugares em que foram oferecidos aos médicos brasileiros, pelos mesmos preços que foram oferecidos aos médicos brasileiros, dentro das mesmas condições que foram oferecidas aos médicos brasileiros, e passarem por um teste como nós passamos quando vamos para fora do Brasil para exercer a profissão, em países que aceitam você, está tudo bem. Se houver teste de seleção como aconteceu com os Estados Unidos, Europa, tudo bem, eles [cubanos] vão para os lugares em que eu não quero ir. No interior vão receber R$ 800 para trabalhar em um lugar que não tem remédio. Ningué000m vai. Não tenho nada contra desde que eles façam a mesma proposta.

Comentários estão fechados